Para ouvir: “O malandro n° 2” João Nogueira
“Meu nome é Tiago,sou cidadão Brasileiro e mesário. Nessas eleições irei votar e trabalhar com muito prazer!”
VOTA BRASIL!
Foram vinhetas como esta, exibidas na TV, que me fizeram desencanar um pouco do fato de eu ser mesário. Não iria perder muita coisa num domingo, porque todo domingo é um porre. E querendo ou não, é um gesto de patriotismo, mesmo sendo um gesto obrigado.
No dia, as ruas já estavam naquele ritimo de festa. Até porque as eleições no Brasil fazem parte daquelas festas tradicionais, como a festa junina, por exemplo... Já faz parte do folclore brasileiro. Têm música (jingles dos vereadores), bandeirinhas coloridas (propaganda pendurada nos postes, pontes, portões), confetes (milhares de santinhos no chão) e fantasias (pessoas com camisetas, boné, chaveiro, lixa, pulseira). Todos festejando a maior festa pseudo-democrática do Brasil.
Sim! Descobri que a palavra democracia é apenas teoria, e porque o voto é obrigatório. O Tiago Cidadão aqui foi ser mesário em uma escola perto de casa que abrange a parte do bairro mais classe baixa possível. Nesse dia percebi que não existe eleição democrática e consciente num país onde a taxa de analfabetos e semi-analfabetos é altíssima, num país onde uma gorda fatia da população, jovens e velhos, não sabem nem mexer na urna eletrônica, não sabem analisar um candidato... Claro que isso não é parâmetro exclusivo da classe baixa, mas são as pessoas dessa classe que são obrigadas a digerir toda aquela propaganda, aquele discurso retórico... Tudo isso ficou claro para mim até porque um dia antes eu havia assistido ‘O Santo guerreiro contra o dragão da maldade’, do Glauber Rocha, e que faz uma metáfora com essa hierarquia que existe (mas isso já é assunto para outro post).
Acabar com a idéia de que o voto é dever de todo cidadão, é acabar com essa forma de oprimir e comprar o povo. Convenhamos que isso é a última coisa que eles querem que aconteça.
VOTA FACULTATIVO... PELO AMOR DE DEUS!
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PÉROLAS DE URNA:
Moça apertando os botões da urna há três minutos. A maquininha apita e aparece no visor: FULANO DE TAL ESTÁ DEMORANDO PARA VOTAR “Sicrana, você está com alguma dificuldade?” “Você pode vim aqui?” “Não podemos, qual o problema?” “Não tô conseguindo votar” “Quantos quadradinhos estão aparecendo para você?” Moça conta os quadradinhos: “Nove” “Nove? Ehhh... tenta contar de novo” Moça conta novamente os quadradinhos: “Sete” Mesário diz baixinho para Presidenta da seção: “Vamos pedir para ela contar de novo, pela lógica ela vai diminuir mais dois... dá cinco!”
Garota grita do outro lado da urna: “Não to conseguindo votar para prefeito” “Digite os dois números do seu candidato e aperta CONFIRMA” Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi “Não, não... São só DOIS dígitos” “Ah ta” Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi. Pi “Moça, Aperta o corrige” Pi. “Pronto” “Agora o número do candidato...” Pi. Pi... “PRONTO. PRONTO... JÁ DEU. APRETA O VERDE AGORA. O VER-DE”
Um senhor bêbado entra na sala (tem pessoas que precisam tomar coragem para votar): “Ondié queu vuotu?” “Naquela cadeira lá, senhor” CRACK! “Não. NÃO! EM CIMA DAS MAQUETES DAS CRIANÇAS NÃOOOOOO”
Senhora entra cantando na sala. “A senhora já pode votar” “Ela mexe, ela sobe. Ela dá uma rodada... ai, ai... uuuuiiii e eu vou saber como é que vota?..... É aqui, é?”, diz mexendo na parte traseira da urna.
Mulher acompanhada da mãe vai até a urna. “Mãe vem cá, não sei em quem eu voto, em nome de Jesus!” A Velha vai até lá. Mesário: “A senhora não pode entrar junto” “Ah posso sim... ´” “Não pode não. A senhora, por favor, volte para fila.” “Vou ficar aqui, pois somos iguais em nome de Jesus, quando morrer todo mundo vai para debaixo da terra... (???) e a gente aqui tem que votar nesses capetas, eu voto em Jesus.... blablablablabla...”
P.S: O que será de mim sem o horário político de São Paulo? Acabou o melhor programa de humor de todos os tempos... Não verei mais Osmar Lins e a Luiza ‘vovó-da- casa-do-pão-de-queijo’ Erundina? O meu único conforto é saber que pelo menos verei, por mais alguns dias, as gengivas e a cabeça de alien do Serra, e o os tiques nervosos do olho da Marta.
Escrito por Tiago às 12h31
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